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As horas de sono seriam a chave para o tratamento da depressão?

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Texto: Postado em Notícias por Marcelo Morais no dia 26 de Outubro de 2016 e última atualização dia 19 de Julho de 2018 .

A medicação é uma importante parte no tratamento de pacientes com transtorno depressivo maior (ou major depressive disorder, em inglês), mas o início do uso de antidepressivos nem sempre é tranquilo.

Pode-se levar até 6 semanas para que uma pessoa responda à farmacoterapia e, ainda assim, a taxa de remissão (quando o transtorno deixa de se manifestar) é de, aproximadamente, 1/3. Desta forma, a maioria dos pacientes que sofrem de depressão poderia ser beneficiada com uma melhoria no tratamento com medicação.

Pesquisadores especialistas em psiquiatria e medicina do sono, da Universidade de Michigan (U-M) nos EUA, encontraram uma potencial forma de ajudar estes pacientes. Descobriram que um planejamento preciso do sono pode afetar a taxa de remissão com o uso de antidepressivos e o tempo de resposta à medicação. Mas não da forma que esperavam.

Dormir mais e não menos

Em estudos anteriores, a maioria realizados em ambiente e condições controladas, mostraram que a privação de sono total ou parcial (entre 4 e 5 horas de sono apenas), em uma única noite, melhorou o humor de cerca de 60% dos pacientes no dia seguinte. Contudo, esta grande quantidade de horas de privação do sono não é praticável, e nem segura, para ser repetida em condições não controladas (em casa, por exemplo).

Em um novo estudo da U-M, publicado no Journal of Clinical Psychiatry [1], 68 adultos foram escolhidos para passarem 6 ou 8 horas deitados em camas para o sono noturno (Tempo Total de Registro ou TTR - do momento de apagar as luzes até o final da noite), durante as 2 primeiras semanas de uso do antidepressivo fluoxetina.

Este é o primeiro estudo para avaliar os efeitos sobre o humor de pacientes sem controle clínico prévio e sujeitos a um regime moderado de permanência na cama. Sono e humor foram medidos diariamente durante as duas primeiras semanas e a medição de humor continuou semanalmente por mais de seis semanas após os pacientes retornaram aos seus horários de sono preferido, e com o uso contínuo de fluoxetina.

"É importante encontrar estratégias práticas e seguras que podem melhorar nossas terapias tradicionais para a depressão, por isso, decidimos avaliar uma quantidade mais modesta de privação de sono, que poderia ser facilmente implementada juntamente com o tratamento por medicação", disse Dr. J. Todd Arnedt, pesquisador-chefe e professor associado de psiquiatria e neurologia na U-M, em um comunicado.

"Embora nós previssemos que o grupo com menos tempo na cama teria uma melhor resposta, com base em pesquisas anteriores de privação de sono, na verdade, encontramos o oposto."

Surpreendentemente, o grupo que passou 8 horas por noite na cama mostrou melhorias mais significativas em todos os aspectos medidos. Os pacientes tiveram probabilidade quase duas vezes maior de atingir a remissão da depressão, após oito semanas de tratamento com antidepressivo - 63%, em comparação com 33% do grupo de 6 horas. Eles também experimentaram uma resposta mais rápida ao tratamento.

"Este é o primeiro estudo a demonstrar que o sono adequado pode acelerar e melhorar a resposta ao tratamento com antidepressivo", disse Dr. Arnedt, "mas é necessária mais investigação."

Sono REM versus Sono de Ondas Lentas

Dos indivíduos que passaram 6 horas na cama, um grupo foi dito para ficar acordado até duas horas mais tarde e outro para acordar duas horas mais cedo. Os pesquisadores queriam avaliar se alterações no Sono de Ondas Lentas ou no Sono REM afetariam as taxas de resposta ao tratamento ou a remissão. Estudos anteriores haviam produzido resultados contraditórios quanto a relação entre mudanças em determinadas fases do sono e a resposta ao tratamento.

Depois de duas semanas, exames de polissonografia verificaram que os indivíduos que acordaram duas horas mais cedo experimentaram uma redução significativa no sono REM, enquanto os que ficaram até mais tarde experimentaram um aumento da quantidade de sono de ondas lentas. Mas diferenças na resposta ao tratamento não foram encontradas nos dois grupos de 6 horas.

"Esta investigação não encontrou indícios de que o sono de ondas lentas ou sono REM teriam um papel importante para a resposta ao tratamento", disse Dr. Arnedt.

Mais informações sobre as fases do sono, acesse aqui.

Monitorando conformidades

Na primeira semana da pesquisa, os pacientes realizariam as 6 ou 8 horas de tempo na cama nas suas respectivas casas e respeitando o seus padrões de horários. Contudo, era necessário que estes fossem "vigiados", para que respeitassem as horas estabelecidas no estudo.

A computação vestível permitiu que os pesquisadores monitorassem se os indivíduos do estudo estavam seguindo exatamente as instruções quanto ao tempo que deveriam passar deitados nas camas (no caso, o TTR - Tempo Total de Registro). O dispositivo ActiGraph, similar ao Fitbit mas capaz de detectar o sono de forma mais precisa, utilizou sensores de movimento para determinar se os pacientes passaram as horas de cama designados.

O grupo encarregado por 8 horas na cama, em sua maioria, aderiu ao cronograma estabelecido. Enquanto o grupo de 6 horas teve grande dificuldade, onde a parcela que deveria acordar 2 horas mais cedo gastou, em média, 1 hora a mais que o instruído.

“Estas descobertas nos dizem que, mesmo se o regime de 6 horas tivesse rendido melhores resultados para a resposta ao tratamento, os pacientes teriam dificuldade para seguir a recomendação médica de gastar apenas 6 horas na cama, ao longo das 2 primeiras semanas da terapia para depressão. Logo, seria uma estratégia não praticável em pacientes sem acompanhamento clínico constante”, disse Dr. Arnedt.

Olhando para o futuro

Como este estudo foi projetado para avaliar principalmente os efeitos da restrição de tempo na cama na resposta ao tratamento com antidepressivo, o próximo passo, segundo Dr. Arnedt, é avaliar se a otimização ou a extensão do tempo de sono, no início da terapia antidepressiva, melhora a resposta do paciente ao tratamento. A otimização do horário de sono envolveria não somente o quanto as pessoas estão dormindo mas também fatores individuais; tais como: os horários preferidos de dormir e acordar de cada um e a qualidade do sono.

A equipe de pesquisa também está interessada em técnicas de medição mais sofisticadas, como imagens cerebrais e EEG (eletroencefalografia) de alta densidade, para uma análise mais profunda do impacto na manipulação direta do sono REM, sono de ondas lentas e outros aspectos do sono; bem como fatores que impliquem na resposta ao tratamento.

Até que as pesquisas avancem mais, Dr. Arnedt recomenda prestar mais atenção em como, e quanto, os pacientes estão dormindo quando eles iniciam o uso de antidepressivos. Os pacientes que começam o uso de um novo antidepressivo devem ser advertidos quanto à influência da privação de tempo na cama, pois poderia influenciar o quão rápido e eficaz eles respondem à medicação.

"Eventualmente, nós gostaríamos de identificar combinações de sono e tratamentos circadianos que seriam, independentemente, eficazes para o tratamento da depressão e que poderiam ser usados ​​de forma prática e segura, em ambientes controlados ou não", diz ele.

Fontes e referências: 
[ref] http://www.sleepreviewmag.com/2016/09/sufficient-sleep-key-successful-antidepressant-response/
[1] http://www.psychiatrist.com/jcp/article/Pages/2016/aheadofprint/15m09879.aspx

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