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Como a tecnologia do sono aumentará a diferença entre ricos e pobres

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Texto: Postado em Curiosidades e Estudos por Marcelo Morais no dia 28 de Janeiro de 2016 e última atualização dia 15 de Julho de 2018 .

Artigo originalmente publicado na Motherboard por Natalie O’Neill e traduzido por Stephanie Fernandes.

É fácil culpar políticos e empresas gananciosas pela lacuna crescente entre ricos e pobres, mas há quem diga que, na verdade, é a tecnologia do sono que vai incitar a luta de classes do futuro.

Alguns especialistas acreditam que gagdets de redução de sono intensificarão o problema de desigualdade salarial em todo o planeta. A ideia é que apenas os abastados poderão comprar esses equipamentos e, assim, serão os únicos capazes de serem mais produtivos no trabalho. É como dizem por aí: os ricos cada vez mais ricos. Noite após noite.

Nos próximos 20 anos, líderes militares destravarão o segredo para precisar de duas horas de sono por noite por meio de uma “combinação de aparelhos e químicos”, antecipou Marcelo Rinesi, do Instituto de Ética e Tecnologias Emergentes. Rinesi prevê que, assim que os cientistas resolverem as falhas e reduzirem os efeitos colaterais, as máquinas de estímulo de produtividade serão disponibilizadas para civis.

Assim como os computadores, os primeiros modelos dessas inovações de sono custarão milhares de dólares, oferecendo, óbvio, uma vantagem biológica àqueles que já são economicamente favorecidos. Isso engatilhará indignação e protestos, segundo ele. “O impacto social e econômico será enorme. Vai gerar muito ressentimento e inveja. Não estamos acostumados com pessoas ricas vivenciando uma experiência biológica de vida diferente.”

“Isso vai deixar os patrões com muito poder nas mãos, especialmente por conta do mercado de trabalho reduzido, ao passo que as empresas estão começando a confiar mais em robôs”, acrescentou. “Essa é a minha distopia particular.”

Hoje as pessoas mais pobres têm vidas mais curtas e menos saudáveis, frequentemente assoladas por obesidade e doenças, segundo dados do Instituto Urbano. Em breve, elas talvez sejam forçadas a acrescentar sono à lista de fatores que diminuem sua qualidade de vida, disse Rinesi. “Sono não é uma doença — mas é capaz que, em 50 anos, as pessoas digam: ‘Nossa, coitado daquele cara, ele precisa ficar inconsciente 8 horas por dia’.”

As primeiras ferramentas de redução de sono provavelmente serão “máquinas que soldados acoplam a si próprios” para monitorar e ajustar a neuroquímica, disse Rinesi. À medida que o design for aperfeiçoado, a ferramenta ficará do tamanho de um iPod, portátil, e por fim ficará “menor e mais barata e melhor”, até que esteja minúscula o bastante para ser “implantada no cérebro”, disse ele. Os implantes estimularão seções do cérebro e serão complementados com medicamentos para acelerar o metabolismo e regular a química do cérebro e do corpo, explicou.

Profissionais que ganham muito, como advogados e executivos de fundo de cobertura, serão motivados a gastar horas extra trabalhando, disse ele. Outros se sentirão pressionados a competir com robôs trabalhadores, assentiu James Hughes.

Pense na tecnologia do sono como o novo café, disse Hughes, autor do livro de não-ficção Citizen Cyborg:Why Democratic Societies Must Respond to the Redesigned Human of the Future [Cidadão-Ciborgue: Por que Sociedades Democráticas Precisam Reagir ao Projeto de Humano do Futuro, em tradução livre].

“Será usada como cafeína e anfetaminas para aumentar a produção — o novo Valium”, previu ele. “No futuro, a quantidade de empregos decairá por conta dos robôs e quem não precisar dormir tanto levará bastante vantagem.”

Parece uma história tirada de um livro de ficção científica, mas o exército americano já está estudando maneiras para reduzir o sono, segundo um relatório de “Performance Humana” financiado pelo Pentágono.

“O fator de performance mais impactante em eficiência militar é a degradação do desempenho sob condições estressantes, especialmente a falta de sono”, de acordo com o relatório de 2008.

O relatório denota um senso de urgência em ser o primeiro a dominar a tecnologia do sono. “Se uma força oponente adquirir vantagem em sono, seria uma ameaça séria… A manipulação e compreensão do sono humano fazem parte do programa de modificação da performance humana em que descobertas podem trazer consequências para a segurança do país”, declarou o relatório.

Cinco anos depois, o ramo de pesquisa do exército americano criou uma máscara para reduzir a necessidade de sono. O Somneo Sleep Trainer aquece o rosto e bloqueia distrações audiovisuais para estimular o sono profundo rapidamente e permite que o usuário durma melhor em menos tempo, de acordo com a Agência de Projetos Avançados em Pesquisa para Defesa. Também tem uma luz azul que pisca de modo gradual à medida que a hora de acordar se aproxima. Isso restringiria o hormônio do sono, a melatonina, a criar uma sensação menos grogue.

Líderes militares, como o General George Patton, da Segunda Guerra Mundial, usam o sono como estratégia para vencer guerras há muito tempo, conforme aponta o relatório de Performance Humana. Na Segunda Guerra Mundial, os nazistas tomavam metanfetamina para permanecer alerta e intensificar a performance — chamavam o cristal de “auxílio de alerta” e “pílula-milagre”, segundo o autor alemão Heinrich Boll, vencedor do Nobel.

Do ponto de vista de Rinesi, a tecnologia de redução de sono é uma extensão disso. “Não sabemos muito bem como manter as pessoas acordadas sem deixá-las psicóticas. Mas será o exército americano ou o exército chinês que descobrirão como fazê-lo. Eles têm o capital e a necessidade”, disse ele. “Quando chegar às mãos dos civis, aí é que vai ficar interessante.”

A tecnologia já desempenhou papel importante no aumento da lacuna salarial nos Estados Unidos nos últimos 60 anos. “Alguns economistas acreditam que a principal força por trás das mudanças na estrutura salarial americana é a tecnologia”, um relatório do Gabinete Nacional de Pesquisas Econômicas observou. “Existe uma relação causal direta entre mudanças tecnológicas e redistribuição de renda agindo sobre a economia americana.”

Mas restringir a tecnologia — incluindo ferramentas de redução de sono — não é o caminho para resolver o problema, disse Hughes. “Não banimos couve porque é melhor para você do que batatinhas”, disse ele, acrescentando que gadgets podem aumentar a produtividade e qualidade de vida da mesma forma que dietas saudáveis.

Em vez disso, cabe às autoridades governamentais ajudar a nivelar o campo. No futuro, a solução para diminuir a lacuna entre ricos e pobres não será muito diferente de hoje, disse Hughes. “É a mesma solução que tentamos há 150 anos”, completou. “Tributar os ricos.”

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